
Filme português "A Falha", realizado por João Mário Grilo, baseado na obra de Luís Carmelo.
João Mário Grilo é professor universitário da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa). Docente de várias disciplinas do Curso Ciências da Comunicação. E eu tive o prazer de acompanhar as suas aulas de Filmologia.
Sinopse:
Vinte cinco anos depois de terem terminado o liceu numa cidade de província, um grupo de antigos colegas reencontra-se para um almoço comemorativo.
Mas, ao contrário do que alguns esperavam, o tempo deixou as suas marcas e acentuou as diferenças entre as vidas que cada um seguiu. O ambiente é tenso, a conversa forçada e sente-se nos olhares que são trocados durante a refeição que antigos rancores, desamores e cumplicidades vêm ao de cima. No final, um deles anuncia-lhes uma surpresa que tem preparada: a visita a uma impressionante pedreira de mármore da região.
Mas nada os tinha preparado para a tragédia que se seguirá, e que os levará a confrontar-se com terríveis fantasmas do passado...
Ficha Artística:
ALEXANDRA LENCASTRE, TERESA ROBY, ROGÉRIO SAMORA, JOÃO LAGARTO, SUZANA BORGES, ADRIANO LUZ, RITA BLANCO, ORLANDO COSTA
Ficha Técnica:
Argumento: JOÃO MÁRIO GRILO, LUÍS CARMELO
Baseado na obra de: LUÍS CARMELO
Imagem: SABINE LANCELIN
Som: PHILIPE MOREL
Montagem: RODOLFO WEDELES
Decoração: JOÃO CALVÁRIO
Guarda-roupa: SILVIA GRABOWSKI
Direcção de Produção: BEATRIZ JARMELA
Produzido por: PAULO BRANCO
Uma co-produção:
MADRAGOA FILMES
GEMINI FILMES
RTP - RADIOTELEVISÃO PORTUGUESA
Ano: 2002
Com o apoio de: Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimédia
Um filme de: JOÃO MÁRIO GRILO
Nota de Intenções de João Mário Grilo:
1. A prática da "adaptação" literária sempre foi totalmente estranha ao meu cinema, e não foi ainda este filme que a tornou familiar. Nunca serei um "adaptador", pelo menos enquanto por adaptação se entender uma simples estratégia de conversão linguística e transferência "expressiva" de uma arte noutra arte (que, na maior parte das vezes, ela nem sequer convoca).
A presença da literatura interessa-me, no entanto, enquanto presença do "lido". Nesse sentido, sim; A FALHA foi um projecto de adaptação da leitura de um romance (excelente e generoso) ao imaginário e às formas do cinema. De qualquer modo, este filme mostrará não o que o romance é (o que ele é não precisa, por definição, de ser "mostrado") mas o que ele foi, lido e percebido, num certo momento e por um determinado cineasta. O romance, esse permanecerá incólume, de novo aberto a outras leituras, outras tantas "extensões";
2. A FALHA é um filme sobre um mau encontro com o passado, que tem aqui tudo de medonho e nada de nostálgico. É um filme sobre uma revolução belíssima, mas "imperfeita", que será preciso acabar todos os dias, num país onde o passado é uma dimensão absolutamente (tragicamente) contingente do presente e onde, por isso, é preciso abrir as falhas necessárias para que nada possa ser "outra vez" (apesar de o quererem, e muito: do futebol à política, da economia à televisão/religião);
3. Interessa-me muito a separação entre o "plano de cima" e o "plano de baixo", a dissonância das acções, dos valores e dos sentimentos, a imagética que o Luís Carmelo projectou no romance e que é bastante consonante com a minha (o tempo como princípio de segregação do espaço). O inferno de uns é, neste filme, o céu de mármore dos outros; a falha, o que irremediavelmente os liga e separa. Como planificação, o filme procurou ser a declinação deste princípio, desta geometria.
4. Nunca tinha filmado a minha geração. Filmei sempre um bocado antes e um bocado depois. Depois de vinte anos de filmes, este encontro teve um vago sabor de vingança. Ainda hoje me confunde ver no que se tornaram as pessoas que viveram a última grande revolução (falha) europeia. Não a merecemos.
5. Por tudo o que foi e representou de diferença, a Teresa foi sempre a melhor de todos nós. Este filme é para ela, onde quer que esteja.
Nota: informações retiradas do site Madragoa Filmes.
Publicado por mcosta em novembro 17, 2003 11:01 AM